{"id":575,"date":"2008-09-08T14:33:40","date_gmt":"2008-09-08T17:33:40","guid":{"rendered":"http:\/\/meiradarocha.jor.br\/news\/?p=575"},"modified":"2008-12-25T03:42:25","modified_gmt":"2008-12-25T06:42:25","slug":"uma-forma-de-democracia-direta-e-algo-que-hoje-pode-ser-tecnologicamente-possivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/meiradarocha.jor.br\/news\/2008\/09\/08\/uma-forma-de-democracia-direta-e-algo-que-hoje-pode-ser-tecnologicamente-possivel\/","title":{"rendered":"&#8216;Uma forma de democracia direta \u00e9 algo que hoje pode ser tecnologicamente poss\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista especial com Massimo di Felice no <a href=\"http:\/\/www.unisinos.br\/ihuonline\/index.php?option=com_edicoes&amp;Itemid=18\">site do Instituto Humanitas da Unisinos<\/a>. O IHU se tornou uma esp\u00e9cie de <em>think tank<\/em> das novas possibilidades de organiza\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>&#8220;Atrav\u00e9s da rede, das tecnologias digitais, as comunidades ind\u00edgenas est\u00e3o, por exemplo, mostrando o seu pr\u00f3prio ser \u00edndio no mundo contempor\u00e2neo e refor\u00e7ando a sua pr\u00f3pria identidade e cultura\u201d, diz o professor Massimo di Felice sobre as transforma\u00e7\u00f5es que as novas redes sociais, possibilitadas pelos avan\u00e7os das novas tecnologias, est\u00e3o gerando no mundo. A reflex\u00e3o que o professor faz \u00e9 extremamente positiva, tanto do ponto de vista social quanto econ\u00f4mico, para as possibilidades criadas pela internet, que, para ele, \u00e9 totalmente a favor do local, o que nos aproxima cada vez mais da cultura gerada pelo nosso grupo, pela nossa comunidade, pela nossa fam\u00edlia. Com o aumento do acesso a essas redes, vamos nos afastando, aos poucos, das grandes m\u00eddias de massa que nos tiram do nosso pr\u00f3prio mundo para nos colocar numa sociedade que n\u00e3o pensa o indiv\u00edduo, mas pensa nas pessoas enquanto pertencentes a uma massa. A entrevista concedida \u00e0 IHU On-Line foi realizada por telefone.<!--more--><\/p>\n<p>Massimo di Felice \u00e9 graduado em Sociologia, pela Universita degli Studi La Sapienza, na It\u00e1lia. \u00c9 especialista em Teoria e Analisi Qualitativa e doutor em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o pela universidade de S\u00e3o Paulo, onde atualmente \u00e9 professor. \u00c9 autor de Pensamento ind\u00edgena contempor\u00e2neo e novas formas de conflitualidade social (S\u00e3o Paulo: Editora Xam\u00e3, 2002) e Do p\u00fablico para as redes (S\u00e3o Caetano do Sul: Difus\u00e3o, 2008), entre outras obras.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line<\/strong> \u2013 A internet hoje parece caminhar para uma democracia de acessos, ou seja, servi\u00e7os que antes eram dif\u00edceis de trabalhar e caros, hoje s\u00e3o oferecidos na rede de uma forma f\u00e1cil e gratuita. Quais os impactos trazidos pela tecnologia digital na democracia de nosso mundo contempor\u00e2neo?<\/p>\n<p><strong>Massimo di Felice<\/strong> \u2013 A comunica\u00e7\u00e3o digital tem um impacto muito forte na rela\u00e7\u00e3o entre o indiv\u00edduo e o territ\u00f3rio, porque ela altera a forma de constru\u00e7\u00e3o e de repasse das informa\u00e7\u00f5es. Desde a antiga Gr\u00e9cia at\u00e9 o surgimento da TV, a forma de comunica\u00e7\u00e3o tradicional de repasse de informa\u00e7\u00f5es \u00e9 feita unidirecionalmente e analogicamente, baseada na emiss\u00e3o de uma mensagem por um emissor, recebida por um p\u00fablico que n\u00e3o \u00e9 passivo completamente, mas que, tecnologicamente, n\u00e3o pode emitir mensagem. Com a comunica\u00e7\u00e3o digital n\u00f3s temos, pela primeira vez na hist\u00f3ria da humanidade, a altera\u00e7\u00e3o desse fluxo comunicativo, a cria\u00e7\u00e3o de uma forma de comunica\u00e7\u00e3o em rede onde todos os indiv\u00edduos s\u00e3o, ao mesmo tempo, emissores e receptores, ou seja, todos n\u00f3s podemos criar mensagens e distribu\u00ed-las em rede. Esta \u00e9 uma grande revolu\u00e7\u00e3o dentro do conceito da democracia, pois altera profundamente as rela\u00e7\u00f5es entre p\u00fablico e institui\u00e7\u00f5es e a forma de gerar e redistribuir informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da esfera p\u00fablica, que est\u00e1 ligada, como diz Habermas, ao indiv\u00edduo racional, os sujeitos s\u00e3o informados pela imprensa e passam a opinar sobre os assuntos que est\u00e3o na pauta da sociedade. Esta opini\u00e3o \u00e9 racional e ligada ao mundo das formas escritas. Ela acontece onde todos os indiv\u00edduos podem tranq\u00fcilamente expressar conte\u00fado, desenvolver narrativa e opinar sobre qualquer assunto e postar para todos. Ent\u00e3o, inclusive o conceito de esfera p\u00fablica se altera profundamente e, sobretudo, se cria uma rela\u00e7\u00e3o onde qualquer indiv\u00edduo pode dialogar com os demais, criar conte\u00fado e experimentar novas formas de participa\u00e7\u00e3o on-line.<\/p>\n<p>Isso est\u00e1 acontecendo no mundo todo, mas \u00e9 ainda mais forte no Brasil. N\u00f3s temos uma divis\u00e3o social muito grande, onde a esfera p\u00fablica estava limitada aos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o. O impacto dessa grande transforma\u00e7\u00e3o comunicativa \u00e9 vis\u00edvel no Brasil e est\u00e1 alterando profundamente a esfera p\u00fablica e incluindo sujeitos que historicamente estavam \u00e0s margens, como os ind\u00edgenas, os jovens da periferia e todos os novos tipos de atores sociais.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line<\/strong> \u2013 At\u00e9 pouco tempo a Espanha, um pa\u00eds de primeiro mundo, tinha o maior n\u00famero de horas de acesso \u00e0 internet por usu\u00e1rio. Hoje, o Brasil, um pa\u00eds ainda em desenvolvimento, \u00e9 o pa\u00eds que mais tempo navega na rede. O que significa essa mudan\u00e7a?<\/p>\n<p><strong>Massimo di Felice<\/strong> \u2013 Esta mudan\u00e7a, no caso do Brasil, pode significar muita coisa. Eu uso a express\u00e3o \u201cpode\u201d porque obviamente as mudan\u00e7as n\u00e3o est\u00e3o somente ligadas a uma transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m a um conjunto de outros elementos que n\u00e3o necessariamente est\u00e3o ligados \u00e0 tecnologia, como, por exemplo, o n\u00edvel de instru\u00e7\u00e3o e o n\u00edvel de acesso ao processo educativo formal. No caso do Brasil, isso \u00e9 ainda muito dif\u00edcil, pois boa parte dos jovens brasileiros n\u00e3o tem acesso \u00e0 universidade. Isso significa que, portanto, possuir acesso a uma comunica\u00e7\u00e3o digital, interativa, que permite ter um poder enorme de se expressar e redistribuir isso ao mundo inteiro na rede nasce do outro lado, s\u00f3 com indiv\u00edduos com n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o formal ou m\u00e9dio alto, e cria um grande processo de transforma\u00e7\u00e3o. A internet pode ajudar fortemente o processo de ingresso de parte da popula\u00e7\u00e3o jovem do Brasil na universidade, de uma forma muito maior e radical do que as propostas que foram feitas com as cotas, por exemplo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a internet pode desenvolver um projeto interessante de participa\u00e7\u00e3o e de colabora\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um elemento fundamental. \u00c9 necess\u00e1rio que sejam feitas reflex\u00f5es sobre esta passagem de um tipo de tecnologia comunicativa da democracia para um tipo de psicologia comunicativa da colabora\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma diferen\u00e7a bastante grande. Todo o conceito de democracia que n\u00f3s temos constru\u00eddo na hist\u00f3ria \u00e9 passado. A tecnologia digital cria uma nova forma de constru\u00e7\u00e3o do processo democr\u00e1tico, que atravessa as tecnologias informativas, e os indiv\u00edduos podem, colaborativamente, criar redes participativas, decidir em que projetos atuar e interagir a partir de uma a\u00e7\u00e3o direta sobre o territ\u00f3rio sem media\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias. Muda praticamente tudo.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 uma novidade, pois se observarmos o impacto que teve a tipografia, quando Gutenberg criou a impress\u00e3o dos livros, veremos que ela iniciou um processo de incremento de acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es com choque enorme n\u00e3o somente na organiza\u00e7\u00e3o e estrutura social, mas tamb\u00e9m promoveu uma transforma\u00e7\u00e3o radical no conceito de democracia. Existe, portanto, uma clara rela\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria entre a forma de acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es e a tecnologia de distribui\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es e o modelo democr\u00e1tico. Estamos vivendo um per\u00edodo em que essa rela\u00e7\u00e3o est\u00e1 se modificando de novo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line <\/strong>\u2013 Como se constitui essa ciberdemocracia? A partir dela \u00e9 poss\u00edvel pensar numa realidade com cada vez menos exclu\u00eddos digitais?<\/p>\n<p><strong>Massimo di Felice<\/strong> \u2013 Do ponto de vista hist\u00f3rico imediato, \u00e9 extremamente r\u00e1pido. Os \u00faltimos dados mostram que o Brasil tem um incremento de acesso \u00e0 internet enorme. Podemos comparar o que isso significa do ponto de vista hist\u00f3rico com a inven\u00e7\u00e3o do livro, por exemplo. Quanto tempo passou da sua inven\u00e7\u00e3o at\u00e9 o acesso de massa? Foram s\u00e9culos, pois o acesso de massa ao livro surge somente com o com\u00e9rcio da metade do s\u00e9culo XIX na Europa. N\u00f3s temos s\u00e9culos e s\u00e9culos entre a inven\u00e7\u00e3o da tecnologia ao livro e o acesso p\u00fablico de fato a isso. Agora, se pensarmos quanto tempo passou da inven\u00e7\u00e3o do telefone ao acesso p\u00fablico do telefone, veremos que temos a\u00ed um s\u00e9culo e meio, mas um tempo ainda menor do que o acesso ao livro. Se n\u00f3s fizermos uma rela\u00e7\u00e3o \u00e0 inven\u00e7\u00e3o da internet e a sua difus\u00e3o de massa, veremos que o dado est\u00e1 cada vez mais reduzido. N\u00f3s j\u00e1 temos amplo acesso a ela, mas em poucos anos esse dado estar\u00e1 ainda mais quantitativamente e qualitativamente alterado. Em v\u00e1rias cidades do interior de S\u00e3o Paulo, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel acessar a internet em qualquer lugar, ou seja, a tecnologia est\u00e1 resolvendo o problema do acesso.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 tanto o acesso, mas o que fazer com a rede. Esso \u00e9 a grande possibilidade para a revolu\u00e7\u00e3o da democracia. A nova democracia que est\u00e1 sendo criada muda completamente a forma de participa\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo na sua cidade. A m\u00eddia de massa, anal\u00f3gica, informava o indiv\u00edduo, fazia com que ele somente recebesse a informa\u00e7\u00e3o e, portanto, e s\u00f3 se tornava ativo como cidad\u00e3o na medida em que fosse informado pelas m\u00eddias, que era o instrumento que determinava a inclus\u00e3o na esfera p\u00fablica. A rede digital, a ciberdemocracia, cria uma outra forma de participa\u00e7\u00e3o, completamente diferente. Pois o indiv\u00edduo n\u00e3o somente usa a rede para acessar as informa\u00e7\u00f5es, mas pode ser editor, criador de informa\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de fazer a sua distribui\u00e7\u00e3o na rede. Ent\u00e3o, cria uma forma ativa de cidadania, uma forma de democracia direta. Norberto Bobbio, um dos principais estudiosos das ci\u00eancias pol\u00edticas, no texto O futuro da democracia (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992), disse claramente que a democracia direta era algo imposs\u00edvel, ut\u00f3pico e seria poss\u00edvel somente no dia em que existir uma m\u00e1quina que permitiria que o indiv\u00edduo possa, com um simples apertar de um bot\u00e3o, distribuir o pr\u00f3prio parecer, a pr\u00f3pria id\u00e9ia, o pr\u00f3prio voto, em tempo real para a popula\u00e7\u00e3o inteira. Obviamente, quando Bobbio disse isso n\u00e3o existia a comunica\u00e7\u00e3o digital. Hoje, isso \u00e9 poss\u00edvel. Portanto, pensar uma forma de democracia direta \u00e9 algo que hoje pode ser tecnologicamente poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line <\/strong>\u2013 O que nos ensina a economia da abund\u00e2ncia? Como a economia da gratuidade est\u00e1 inserida neste contexto?<\/p>\n<p><strong>Massimo di Felice <\/strong>\u2013 A economia da abund\u00e2ncia tamb\u00e9m est\u00e1 ligada \u00e0 economia da escassez, porque a abund\u00e2ncia remete a um processo de acesso a um conjunto de possibilidades de expans\u00f5es e tamb\u00e9m de incremento de produ\u00e7\u00f5es. N\u00f3s sabemos que a distribui\u00e7\u00e3o desse incremento de produ\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 generalizada. Do ponto de vista da comunica\u00e7\u00e3o, n\u00f3s passamos da sociedade dos grandes n\u00fameros, que \u00e9 a sociedade da m\u00eddia de massa, onde temos uma grande produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es por grandes centrais emissoras, para um tipo de comunica\u00e7\u00e3o de economia pan-comunicativa. Neste, essas emiss\u00f5es geram um ciclo de produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es enorme e passa a distribu\u00ed-las na rede, criando uma grande quantidade de informa\u00e7\u00f5es. Eu diria que, do ponto de vista econ\u00f4mico, a comunica\u00e7\u00e3o digital pode alterar o pr\u00f3prio conceito de valor.<\/p>\n<p>Do ponto de vista de cria\u00e7\u00e3o de possibilidades de acesso a informa\u00e7\u00f5es por parte da popula\u00e7\u00e3o e, portanto, de processo de cria\u00e7\u00e3o de lucro para todos os indiv\u00edduos, \u00e9 importante pensar que hoje qualquer processo produtivo, de sucesso econ\u00f4mico, est\u00e1 ligado ao acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es. \u00c9 importante pensar que at\u00e9 mesmo do ponto de vista econ\u00f4mico o digital oferece uma grande transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line<\/strong> \u2013 As grandes m\u00eddias est\u00e3o cada vez mais perdendo espa\u00e7o no cotidiano das pessoas. H\u00e1 20 anos, t\u00ednhamos muito menos op\u00e7\u00f5es e uma concentra\u00e7\u00e3o grande de audi\u00eancia. Hoje, cada um faz suas m\u00eddias. O que se aprendeu com esse processo?<\/p>\n<p><strong>Massimo di Felice<\/strong> \u2013 Isso est\u00e1 alterando o processo de sociedade, a forma de n\u00e3o somente assistir \u00e0s informa\u00e7\u00f5es e de receb\u00ea-las at\u00e9 mesmo no imagin\u00e1rio coletivo \u2013 que antes era criado pela m\u00eddia de massa. O cinema antes era o respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio coletivo. Hoje n\u00f3s temos a passagem para um outro tipo de imagin\u00e1rio, chamado imagin\u00e1rio objetivo, no qual os indiv\u00edduos interagem com m\u00eddias pessoais e possuem um tipo de imagin\u00e1rio pessoal. \u00c9 a passagem da m\u00eddia de massa para a personal m\u00eddia. Isso cria um pertencimento \u00e0 sociedade extremamente diferente da sociedade que cria um imagin\u00e1rio coletivo. Com isso, os la\u00e7os sociais passaram a se enfraquecer, o que n\u00e3o \u00e9 necessariamente um mal. Na medida em que novas formas de coes\u00e3o passam a existir, novos tipos de la\u00e7os s\u00e3o gerados, que s\u00e3o la\u00e7os tempor\u00e1rios ou ocasionais. Por exemplo, as rela\u00e7\u00f5es sociais dos jovens que nasceram j\u00e1 num contexto digital n\u00e3o s\u00e3o mais somente locais. Atrav\u00e9s dos sites e das arquiteturas digitais sociais, os jovens criam la\u00e7os que s\u00e3o somente territoriais e, portanto, criam um novo tipo de afetividade que n\u00e3o \u00e9 necessariamente territorial. Obviamente isso tem implica\u00e7\u00f5es muito grandes e transforma\u00e7\u00f5es qualitativas. Existem te\u00f3ricos que dizem que a sociedade contempor\u00e2nea \u00e9 uma sociedade de enfraquecimento, outros dizem que \u00e9 uma sociedade que est\u00e1 reorganizando as suas formas de rela\u00e7\u00f5es e la\u00e7os sociais e, assim, est\u00e3o criando novos tipos de intera\u00e7\u00e3o social que \u00e9 tecnol\u00f3gica. Esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o social na qual o indiv\u00edduo passa a interagir com os demais atrav\u00e9s das media\u00e7\u00f5es compostas pelas tecnologias sociais.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Ontem (referindo-se ao dia 28-08-2008) entrevistamos a primeira \u00edndia formada em Direito no Brasil. Ela fala que os \u00edndios est\u00e3o se apropriando das m\u00eddias, principalmente digitais, mas sem perder a sua identidade. Como o senhor analisa a quest\u00e3o das identidades a partir dessa realidade da comunica\u00e7\u00e3o digital e essa \u201ctomada da palavra\u201d pelas minorias, agora n\u00e3o s\u00f3 pensando nos ind\u00edgenas, que permite uma circula\u00e7\u00e3o de forma mais aut\u00f4noma pelos conte\u00fados disponibilizados na rede?<\/p>\n<p><strong>Massimo di Felice<\/strong> \u2013 Esse \u00e9 um dos elementos mais vis\u00edveis de uma sociedade que passa a criar uma forma comunicativa digital e \u00e9 diferente das formas de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o digitais anteriores. Existe uma presen\u00e7a hoje muito grande das comunidades ind\u00edgenas on-line, que est\u00e3o fazendo uma ruptura com a hist\u00f3ria da comunica\u00e7\u00e3o no Brasil, na medida em que os povos ind\u00edgenas nunca tiveram antes acesso \u00e0s m\u00eddias, mas sempre foram objetos de interpreta\u00e7\u00f5es da m\u00eddia de massa, e hoje podem produzir diretamente o seu conte\u00fado. Existem redes de ind\u00edgenas de v\u00e1rias comunidades ind\u00edgenas. Numa dessas atividades, h\u00e1 v\u00e1rios escritores ind\u00edgenas na rede que se comunicam entre si e, atrav\u00e9s de uma proposta que fizemos, esses escritores enviaram seus textos e uma editora na Europa publicou o livro deles. Isso criou uma ruptura do cerco cultural que os \u00edndios no Brasil tiveram no decorrer do processo de comunica\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica.Esse \u00e9 um exemplo claro das transforma\u00e7\u00f5es. \u00c9 importante sublinhar, do ponto de vista identit\u00e1rio, que a internet \u00e9 a favor do local. A diferen\u00e7a dela para as m\u00eddias de massa \u00e9 que estas afastam o indiv\u00edduo do seu territ\u00f3rio. A rede \u00e9 absolutamente uma forma de imers\u00e3o e uma grupalidade, porque permite acess\u00e1-la de qualquer canto do mundo, sem negar a sua localidade. Atrav\u00e9s da rede, das tecnologias digitais, as comunidades ind\u00edgenas est\u00e3o, por exemplo, mostrando a sua pr\u00f3pria maneira de agir no mundo contempor\u00e2neo, refor\u00e7ando a sua pr\u00f3pria identidade e cultura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista especial com Massimo di Felice no site do Instituto Humanitas da Unisinos. 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