{"id":224,"date":"2007-09-25T00:01:35","date_gmt":"2007-09-25T03:01:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.meiradarocha.jor.br\/news\/2007\/09\/25\/pela-abolicao-do-emprego\/"},"modified":"2025-01-21T01:35:08","modified_gmt":"2025-01-21T04:35:08","slug":"pela-abolicao-do-emprego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/meiradarocha.jor.br\/news\/2007\/09\/25\/pela-abolicao-do-emprego\/","title":{"rendered":"Pela aboli\u00e7\u00e3o do emprego"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright\"><a href=\"http:\/\/occupywallstreet.net\/story\/black-friday-approaches-so-does-retail-workers-bill-rights\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"380\" height=\"251\" src=\"http:\/\/meiradarocha.jor.br\/news\/wp-content\/uploads\/2007\/09\/anarchist_memes_0.jpg\" alt=\"O patr\u00e3o precisa de voc\u00ea. Voc\u00ea n\u00e3o precisa do patr\u00e3o.\" class=\"wp-image-4111\" srcset=\"https:\/\/meiradarocha.jor.br\/news\/wp-content\/uploads\/2007\/09\/anarchist_memes_0.jpg 380w, https:\/\/meiradarocha.jor.br\/news\/wp-content\/uploads\/2007\/09\/anarchist_memes_0-150x99.jpg 150w, https:\/\/meiradarocha.jor.br\/news\/wp-content\/uploads\/2007\/09\/anarchist_memes_0-300x198.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 380px) 100vw, 380px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>O sistema de emprego, ou <strong>patronato<\/strong>, \u00e9 o sistema de explora\u00e7\u00e3o do trabalho que substituiu a escravatura. \u00c9 apenas um dos sistemas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho que j\u00e1 existiram na hist\u00f3ria da humanidade. Por exemplo, a escravatura foi outro sistema. Na idade m\u00e9dia houve a servid\u00e3o. Atualmente ainda existe a figura da &#8220;filha de cria\u00e7\u00e3o&#8221;, que tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de explora\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>A servid\u00e3o era baseada em <strong>mestres<\/strong> e <strong>servos<\/strong>.<\/li>\n\n\n\n<li>A escravatura era baseada em <strong>senhores<\/strong> e <strong>escravizados<\/strong>.<\/li>\n\n\n\n<li>O patronato \u00e9 baseado em <strong>patr\u00f5es<\/strong> e <strong>empregados<\/strong>.<\/li>\n\n\n\n<li>A &#8220;filha de cria\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 baseada em <strong>patroas <\/strong>e <strong>criadas<\/strong>.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>A escravatura foi substitu\u00edda porque, al\u00e9m da press\u00e3o de um grande movimento popular anti escravid\u00e3o e do medo de uma revolta, escravizados n\u00e3o tinham a produtividade exigida pelo capitalismo. Era mais neg\u00f3cio explorar imigrantes europeus, que tinham maior produtividade e que poderiam trabalhar por uns trocados. Al\u00e9m de embranquecer o pa\u00eds, claro.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed, o senhor virou patr\u00e3o e o escravizado virou empregado, mas continuou <strong>subalterno<\/strong>, <strong>subordinado <\/strong>ao&nbsp; patr\u00e3o. Como apontou o empres\u00e1rio e educador Ricardo Semler, um trabalhador contratado como empregado passa um quarto de sua vida num ambiente altamente autocr\u00e1tico e autorit\u00e1rio, que \u00e9 a empresa atual. <\/p>\n\n\n\n<p>Os trabalhadores, em vez de se organizarem em associa\u00e7\u00e3o de <em>trabalhadores<\/em>, se reuniram em associa\u00e7\u00f5es de <em>empregados<\/em>: os sindicatos. A luta sindical, apesar de ter melhorado imensamente a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores pela CLT, se esfor\u00e7a para melhorar uma das partes do sistema patronato e acaba sustentando o regime como um todo.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Assim como escravizado e senhor s\u00e3o partes do mesmo sistema (a escravatura) patr\u00e3o e empregado s\u00e3o partes do mesmo sistema &#8212; o <strong>patronato<\/strong>. N\u00e3o existiria patronato sem empregados, nem patronato sem patr\u00f5es. Ambos s\u00e3o contrapartes do mesmo sistema. Se uma das partes se d\u00e1 bem (normalmente, o patr\u00e3o), o sistema <em>todo<\/em> se d\u00e1 bem. Se a outra parte &#8212; o empregado &#8212; se d\u00e1 bem (o que \u00e9 raro), o sistema <em>todo<\/em> se d\u00e1 bem. E, principalmente, o mais inaceit\u00e1vel: o <em>trabalhador-empregado<\/em> continua <strong>subalterno<\/strong> ao <em>empres\u00e1rio-patr\u00e3o.<\/em> Sem falar na necessidade que o sistema tem de manter pessoas desempregadas para baixar o pre\u00e7o do trabalho. \u00c9 aquela hist\u00f3ria:  &#8220;se voc\u00ea n\u00e3o quer trabalhar por t\u00e3o pouco sal\u00e1rio, tem quem queira&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Desemprego, o estoque de trabalho<\/h3>\n\n\n\n<p><strong>O &#8220;desempregado&#8221; representa trabalho estocado<\/strong>. Um estoque gera despesas. Imagine uma empresa como a General Motors, que vende carros. Se n\u00e3o h\u00e1 muita procura por carros, a GM estoca os carros no p\u00e1tio. Este estoque tem um custo. Os carros precisam ser guardados, conservados, vigiados, transportados. O terreno tem impostos, recebeu infraestrutura, tem energia. Ent\u00e3o a GM ter\u00e1 preju\u00edzo guardando carros? Dificilmente, porque os custos s\u00e3o dilu\u00eddos no c\u00e1lculo do pre\u00e7o dos carros. Tudo \u00e9 contabilizado. As empresas funcionam assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois o &#8220;desempregado&#8221; tamb\u00e9m \u00e9 um estoque. <strong>Um estoque de servi\u00e7o<\/strong>. Quando n\u00e3o h\u00e1 procura pelo servi\u00e7o, ele tem que ficar estocado em casa, mas sem remunera\u00e7\u00e3o. Ele tem custos: precisa comer, se vestir, se educar, se divertir, criar filhos. Sem ter estes custos contabilizados, ele ter\u00e1 preju\u00edzo. Voc\u00ea acha que uma empresa sobreviveria com esse preju\u00edzo? Ent\u00e3o por que o trabalhador tem que sobreviver assim? A resposta \u00e9 evidente: <strong>\u00e9 preciso contabilizar o custo do estoque de servi\u00e7o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto pode ser feito com uma simples lei, uma esp\u00e9cie de <strong>lei \u00e1urea para os empregados<\/strong>, a <strong>Aboli\u00e7\u00e3o do Emprego<\/strong>:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>Pessoas f\u00edsicas n\u00e3o podem ser contratados para nada nem por ningu\u00e9m, seja por outras pessoas f\u00edsicas ou por outras pessoas jur\u00eddicas.<\/li>\n\n\n\n<li>Apenas pessoas jur\u00eddicas podem fornecer servi\u00e7os atrav\u00e9s de seus propriet\u00e1rios e s\u00f3cios.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>O que isto provocaria? Bem, se uma empresa n\u00e3o pode contratar pessoas como se fossem escravizados pagos, ela s\u00f3 pode contar com o trabalho de seus s\u00f3cios, que recebem<em> pro labore<\/em>. Por exemplo, se uma gr\u00e1fica precisa de m\u00e3o de obra, ela deve contratar servi\u00e7os de uma outra empresa de fornecimento de <em>servi\u00e7os <\/em>gr\u00e1ficos em que todos os trabalhadores da ind\u00fastria gr\u00e1fica sejam s\u00f3cios. Ou seja, uma <strong>cooperativa de trabalho.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas a simples aboli\u00e7\u00e3o da &#8220;nova escravatura&#8221; n\u00e3o resolve o caso. A\u00ed entram os atuais sindicatos, que devem se organizar em cooperativas de servi\u00e7o e <strong>associar todos os trabalhadores <\/strong>de uma regi\u00e3o ou de uma categoria profissional, assegurando que todas as pessoas, antes desempregadas, ter\u00e3o seus custos contabilizados e cobertos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Organiza\u00e7\u00e3o empresarial<\/h3>\n\n\n\n<p>A cooperativa calcula as necessidades de <strong>todas<\/strong> as pessoas, faz sua planilha de custos e vai negociar com quem precisa de servi\u00e7os. Eventualmente, haver\u00e1 mais pessoas que servi\u00e7os, mas a cooperativa decide o que essas pessoas far\u00e3o. Dez por cento das pessoas estar\u00e3o de f\u00e9rias. Outros podem se dedicar a diferentes atividades: trabalho volunt\u00e1rio, pesquisa de novos servi\u00e7os, estudos e qualifica\u00e7\u00e3o. Sempre h\u00e1 coisas para fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>O principal ponto \u00e9 este: as cooperativas se organizam como empresas, pois empresas quase sempre se d\u00e3o bem. Empregados quase sempre se d\u00e3o mal. Empresas t\u00eam administradores, t\u00eam t\u00e9cnicas, tem planejamento. Empresas t\u00eam tudo para dar certo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Democracia empresarial<\/h3>\n\n\n\n<p>O fim do patronato corrige outra situa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel do mundo atual: a falta de democracia. N\u00e3o falo da democracia civil, em que a gente leva 730 dias para exercer: a democracia que conquistamos com muito custo, que n\u00e3o \u00e9 a ideal, mas que \u00e9 melhor que nada. Estou falando da <strong>falta de democracia empresarial<\/strong>, corporativa. No patronato, as pessoas passam mais de oito horas por dia em um ambiente autocr\u00e1tico, altamente autorit\u00e1rio, que \u00e9 o ambiente empresarial, como chamou aten\u00e7\u00e3o o empres\u00e1rio progressista Ricardo Semler ainda antes da queda do muro de Berlim. <strong>Um quarto da vida <\/strong>submetidos&nbsp; a uma hierarquia r\u00edgida, sem oportunidades de desenvolver suas pr\u00f3prias capacidades de discernimento, sem iniciativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa cooperativa, pelo contr\u00e1rio, o associado \u00e9 quem decide, democraticamente. E o melhor: <strong>no final do ano divide os lucros<\/strong>! E as rela\u00e7\u00f5es de uma cooperativa de servi\u00e7os com uma empresa contratante de servi\u00e7os s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es de parceiros no neg\u00f3cio, n\u00e3o de patr\u00e3o-empregado, pois <strong>os dois lados sabem que ganhar\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Faturamento proporcional<\/h3>\n\n\n\n<p>Para os que fornecem servi\u00e7o, a melhor t\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 brigar, como fazem patr\u00f5es e empregados hoje, mas \u00e9 fazer uma associa\u00e7\u00e3o com o contratante de servi\u00e7o, com <strong>remunera\u00e7\u00e3o relativa ao desempenho da empresa<\/strong> contratante. Isto quer dizer que, quando uma empresa estiver em situa\u00e7\u00e3o ruim, a cooperativa de servi\u00e7os receber\u00e1 menos. Em compensa\u00e7\u00e3o, se a empresa contratante de servi\u00e7o se der bem, <strong>todo o mundo vai se dar bem<\/strong>. Isto incentivar\u00e1 todo o mundo a trabalhar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Este sistema tamb\u00e9m vacina a economia contra crises<\/strong>. Numa crise cl\u00e1ssica do capitalismo (na verdade, crise do patronato), a coisa \u00e9 assim:<\/p>\n\n\n\n<ol start=\"1\" id=\"vortex\" class=\"wp-block-list\">\n<li>Quando as empresas come\u00e7am a ser dar mal, demitem.<\/li>\n\n\n\n<li>Sem trabalho, as pessoas param de criar riquezas, pois \u00e9 o trabalho que gera riquezas.<\/li>\n\n\n\n<li>Sem dinheiro, as pessoas param de consumir.<\/li>\n\n\n\n<li>A economia entra num <strong>redemoinho realimentado <\/strong>que engole tudo.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>No sistema sem emprego, quando a economia n\u00e3o est\u00e1 bem, ningu\u00e9m para de trabalhar. <strong>Como n\u00e3o h\u00e1 emprego, n\u00e3o h\u00e1 desemprego<\/strong>. As pessoas continuam trabalhando, portanto a riqueza n\u00e3o para de ser gerada. As pessoas podem ganhar menos, mas n\u00e3o ficam &#8220;desempregadas&#8221;. Com a economia funcionando, fica mais f\u00e1cil atravessar per\u00edodos n\u00e3o muito bons sem o desespero de ficar sem trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda esta jogada pode ser feita sem grandes traumas, apenas seguindo as t\u00e9cnicas de administra\u00e7\u00e3o modernas. Sem derrubar o capitalismo, sem mortes, sem pared\u00f5es. Apenas democratizando o capitalismo. Afinal, a <strong>culpa pela mis\u00e9ria n\u00e3o \u00e9 do capitalismo<\/strong> (a destrui\u00e7\u00e3o do ambiente, sim), mas do patronato, o sistema patr\u00e3o-empregado que substituiu a escravatura.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 que escravatura n\u00e3o foi abolida, foi apenas substitu\u00edda, est\u00e1 na hora de fazermos a <strong>aboli\u00e7\u00e3o do emprego<\/strong>, isto \u00e9, a proibi\u00e7\u00e3o de fornecimento de trabalho por pessoa f\u00edsica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sistema patr\u00e3o-empregado deve ser substitu\u00eddo por um sistema em que s\u00f3 os s\u00f3cios de empresas podem fornecer servi\u00e7os para outras empresas. 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