Análise do tablet BC1003 Flytouch 8 Superpad VIII com ARM Allwinner Boxchip A10

Tablet BC1003O tablet BC1003 “Crane” é um dos mais baratos do mercado e é vendido aos milhares por dezenas de fabricantes diferentes, nas lojas chinesas, onde custa menos de 100 dólares. No Brasil, é encontrado na MPWay com o nome de Wei Wide PRO 10″ por 299 reais em 12 prestações, mais impostos de cerca de 165 reais pagos em cash na hora de retirada nos Correios. O produto vem em uma caixa com duas marcas, Flytouch 8 e Superpad VIII, mas encontrei referência na internet de que são marcas “piratas” de outros produtos. A Wei sequer se deu ao trabalho de colocar seu logotipo no produto.

Foi difícil achar seu fabricante, pois, na cultura industrial shanzhai as mesmas partes e peças (e mesmo produtos completos) são usados e comercializados por diferentes fabricantes sem indicações de procedência. Por uma foto do circuito impresso da placa BT1003, pude achar a Yones Toptech (China) Co. Limited. Suponho que este seja o fabricante OEM original, pois o nome BC1003 corresponde à sua linha de produtos [fora de linha em maio 2014]. É semelhante ao modelo M1050S da Kocaso. No site desta marca existem as únicas imagens para recuperação do firmware que achei na internet.

O BC1003 tem placa baseada no System-on-Chip Allwinner A10 (A10_Datasheet.PDF). O programa Quick System Info Pro gera um relatório que diz:

Dispositivo: crane-bc1003
Modelo: BC1003
Placa: crane
Produto: crane_bc1003
Marca: softwinners
Fabricante: unknown
CPU+ABI: armeabi-v7a
Bootloader: unknown
Rádio: unknown
Hardware: sun4i
Versão: 4.0.4
SDK: 15
Tipo: eng
Build: crane_bc1003-eng 4.0.4 IMM76D 20121217 test-keys
Idioma: pt_BR
Linux version 3.0.8+ (jackie@ubuntu) (gcc version 4.5.1 (Sourcery G++ Lite 2010.09-50) ) #68 PREEMPT Sat Dec 8 08:54:36 CST 2012

Para tirar mais informações do dispositivo, usei o programa adb do Android Development Kit (baixe o adb para Windows). Em Linux, tive que habilitar regras do udev para o tablet. Liguei  a depuração USB e verifiquei no syslog que o dispositivo era reconhecido como:

kernel: [ 3907.368945] usb 2-6.3: New USB device found, idVendor=18d1, idProduct=0003

O idVendor 18d1 é padrão do Google, e o idProduct varia conforme o modo da porta USB (armazenamento de massa, dispositivo de mídia, depuração). Assim, criei um arquivo com regra para o subsistema USB com o comando:

sudo gedit /etc/udev/rules.d/53-android.rules

e coloquei a linha:

SUBSYSTEM=="usb", ATTRS{idVendor}=="18d1", MODE="0666"

Reiniciei o serviço udev:

sudo service udev restart

mas isto não adiantou. O Linux Ubuntu só permitiu acesso ao dispositivo depois de um reboot. Em Windows, o ADB precisa dos drivers que vêm no pacote de desenvolvimento do Android. Liberado acesso ao dispositivo, entrei no shell do tablet com o comando:

/home/meira/android-sdk-linux/platform-tools/adb shell

O shell já abre no usuário root, pois o prompt diz “root@android:/ $”.

O processador é rápido. O comando “cat /proc/cpuinfo” resulta em:

Processor   : ARMv7 Processor rev 2 (v7l)
BogoMIPS    : 1001.88
Features    : swp half thumb fastmult vfp edsp neon vfpv3 
CPU implementer: 0x41
CPU architecture: 7
CPU variant : 0x3
CPU part    : 0xc08
CPU revision: 2
Hardware    : sun4i
Revision    : 0000
Serial      : 0a817c62545448488075895216236786

Em BogoMIPS, medida genérica de capacidade de processamento do Linux, o valor foi de 1001 pontos.

O programa Antutu Benchmark resultou em quase 4 mil pontos.

Resultado do Antutu Benchmark para o BC1003O desempenho em 3D foi de mais de 30 fps no modo sem luzes e 8 fps no modo com luzes e sombras.

A CPU Allwinner A10, também chamada de Boxchip, é um fenômeno de engenharia e de marketing. Em grandes quantidades, custa 7 dólares, o que a fez a preferida para netbooks e tablets, na China. Pode rodar em velocidade escalável de 60 MHz a 1500 MHz. Tem processador de vídeo MALI 400 que permite rodar vídeo de 2160 pixels de altura, 4 vezes a resolução full HD. Possui saída mini HDMI, permitindo que se ligue à TV ou monitor grande. Tem duas portas USB 2.0 e dois slots de cartão MicroUSB (que o chineses chamam de TF Card).

É praticamente à prova de bricking (quando você transforma seu dispositivo num tijolo, ao queimar de forma errada uma ROM). A instalação de novo sistema é feita pela conexão USB, através de um programa para Windows LiveSuitPack.exe, distribuído pela Allwinner. Segundo algumas fontes, o Allwinner A10boot automaticamente em novo sistema instalado no cartão MicroSD. Isto é uma notícia excelente mas ainda não testei.

No BC1003, o “factory reset” só funciona com mouse ou teclado USB, e não com as teclas power e volume do som como é padrão do Allwinner A10, o que me leva a acreditar que seu sistema Android foi desenvolvido para netboooks. Quase mandei para a assistência técnica, até descobrir este detalhe num post escondido do fórum do site XDA Developers.

Softwares

O BT1003 vem com Android 4.04 “Ice Cream Sandwich” e, além dos programas padrão, tem pré-instalados: Adobe Reader, Facebook, Skype, leitor de arquivos DOC Documents To Go, ES Task Manager, e os jogos Fruit Ninja e Angry Birds.

A primeira coisa que eu instalei foi o Link2SD, para permitir a instalação de mais programas num cartão SD sem problemas de falta de memória interna. Mas ele exige sempre um segundo boot rápido para reconhecer o cartão no slot MicroSD. Também coloquei o Quick System Info Pro, que me dá várias informações sobre o sistema e me permite fazer backup dos aplicativos. Instalei e rodei sem problemas o Google Earth, Google Currents, Google Chrome, Freedly e o leitor de ODF Andropen Office.

Multimídia

A câmera é fraquíssima. Há apenas a frontal, de resolução VGA de 640 x 480 pixels. Mas em multimídia, o tablet BC1003 é bom: toca áudio em formatos MP3; WAV; WMA; AAC; AAC+; MP2; OGG; M4A; FLAC e 3GP; e vídeos em formatos AVI, H.264, DIVX, XVID, rm, rmvb,  MKV, WMV, MOV, MP4, H.264, MPEG, DIVX, XVID, e FLV em formato até resolução full HD 1080P. A reprodução é excelente, sem travadinhas, graças ao chip especializado CedarX da Allwinner. O áudio AC97 também tem qualidade muito boa, mesmo nos fones baratos que acompanham o equipamento. O gravador de áudio salva em MP3.

Conectividade

As possibilidades de conexão são o forte do BC1003. É um dos poucos tablets que possuem conexão Ethernet a cabo. Tem duas entradas USB, uma para se conectar a PCs, quando é visto como armazenamento de massa, e outra USB OTG (On The Go), onde podem se espetados pen drives, teclados e mice. Ainda tem um slot de cartão MicroUSB, chamado de cartão TF pelos chineses, e uma saída mini HDMI, para se conectar à TV full HD. Para completar, tem um GPS com uma antena imantada com cabo longo que pode ser colocada do lado de fora (no teto) de um veículo, para melhor recepção.

Instale o Clockworkmod Recovery

Muito importante! Assim que acabar o período de garantia de três meses, instale o Clockworkmod Recovery (CWM). Recovery é um subsistema Android, residente numa partição própria, que serve para ajudar a recuperar o dispositivo, se houver algum problema. E como Androids são computadores, sempre haverá problemas. Mas o Recovery original do BC1003 está defeituoso: só funciona se for chamado a partir do sistema Android já carregado, pelas configurações, opção “Fazer backup e redefinir, Recovery Mode”. Se for chamado ao se ligar o tablet segurando o botão da face ou Home, o sistema tranca na tela com o robozinho deitado e aberto.

Acontece que um problema comum é não se conseguir carregar o sistema. Aí, você ficaria com um tablet “bricked“, um tijolo de alta tecnologia. Com este Clockworkmod Recovery, você pode acessar a recuperação ligando o tablet enquanto segura o botão da face ou o botão Home. O CWM é muito completo. Permite fazer backup e recuperar as partições, ressetar para as configurações de fábrica, limpar o cache e ainda permite acesso por ADB shell. Ou seja, você tem acesso a um shell Linux que permite fazer tudo, menos beijo na boca.

Para instalar o CWM do BC1003, baixe o ZIP CWM6_adb_win  e descomprima numa pasta. Ele tem o Android Debug Bridge (adb) e suas bibliotecas para Windows e a imagem do CWM para Allwinner A10 de 9 partições. Nas configurações, Opções do desenvolvedor, habilite a Depuração USB (deixe sempre ligada esta opção). Ligue o cabo USB e use os seguintes comandos a partir do shell do Windows (que você acessa indo no menu iniciar e digitando “cmd”):

adb push recovery.img /sdcard/
adb shell "cat /sdcard/recovery.img > /dev/block/nandg"

Estes comandos fazem o seguinte: a primeira linha copia a imagem para o cartão microSD do tablet e a segunda, copia o CWM para a partição nandg, a partição do Recovery. Agora, ao ligar o tablet segurando o botão da face ou o Home, você entrará no Clockworkmod Recovery v6.0.2.8. Os botões de volume sobem e descem nas opções do menu, e o botão de ligar funciona como “enter”, para aceitar a opção.

Conclusão

O tablet BT1003 tem uma excelente relação custo/benefício. Pode ser usado com tranquilidade para navegar na internet, ler ebooks, jogar em 3D, ouvir música e passar vídeo HD na televisão. Com teclado e mouse USB, pode ser usado até mesmo para trabalhos pequenos em edição de texto e planilhas (um teclado ABNT2 exige aplicativos como o External Keyboard Helper, R$ 4,95). Sua “hackabilidade” é enorme, e desenvolvedores poderão lançar futuramente atualizações e mods (modificações) do Android.

Pontos positivos

  • Preço.
  • Tela de 10 polegadas, 1024 x  600 pixels.
  • RAM de 1GB e armazenamento de 4GB.
  • Android 4.04.
  • Chip Allwinner A10, o processador ARM mais hackeável que existe.
  • Grande desempenho em rodar vídeos.
  • Já vem “rooted”.
  • GPS externo imantado com excelente recepção.
  • Conexão FastEthernet para rede cabeada.
  • 2 portas USB
  • Uma saída HDMI.
  • Aceita conexão 3G por dongle USB.

Pontos negativos

  • O Recovery é defeituoso.
  • Tela resistiva, que exige pressão para funcionar. Mas tem gente que prefere.
  • O multitoque da tela é terrivelmente errático.
  • Bateria tem pouca duração.
  • Não possui Bluetooth.
  • Câmera subdimensionada, de 0.3 megapixels, VGA 640 x 480 pixels, apenas na frente.

Referências

Sobre José Antonio Meira da Rocha

Jornalista, professor de Planejamento Gráfico e Mídias Digitais da Universidade Federal de Santa Maria, campus da cidade de Frederico Westphalen, Rio Grande do Sul, Brasil. Doutorando em Design na UFRGS, Porto Alegre, Brasil, 2014.