Política

Pela abolição do emprego

O sistema de emprego, ou patronato, é o sistema de exploração do trabalho que substituiu a escravatura. É apenas um dos sistemas de exploração do trabalho que já existiram na história da humanidade. Por exemplo, a servidão era outro sistema. Ou a escravatura.

  • A servidão era baseada em mestres e servos.
  • A escravatura era baseada em senhores e escravos.
  • O patronato é baseado em patrões e empregados.

A escravatura foi substituída porque um escravo era muito improdutivo, entre outros motivos. Era mais negócio explorar um imigrante italiano, que tinha maior produtividade e que poderia trabalhar por uns trocados.

Aí, o senhor virou patrão, o escravo virou operário.

Os trabalhadores, em vez de se organizarem em associação de trabalhadores, se reuniram em associações de empregados: os sindicatos. Mas a luta sindical, apesar de ter melhorado a situação dos trabalhadores, se esforça para melhorar uma das partes do sistema patronato e acaba sustentando o regime como um todo.

Assim como escravo e senhor são partes do mesmo sistema (a escravatura) patrão e empregado são partes do mesmo sistema — o patronato. Não existiria patronato sem empregados, nem patronato sem patrões. Ambos são contra-partes do mesmo sistema. Se uma das partes se dá bem (normalmente, o patrão), o sistema todo se dá bem. Se a outra parte se dá bem (o que é raro), o sistema todo se dá bem. Este é o ardil 22.

E desemprego, o que é?

O “desempregado” representa trabalho estocado. Imagine uma empresa como a General Motors, que vende carros. Se não há muita procura por carros, a GM estoca os carros no pátio. Este estoque tem um custo. Os carros precisam ser guardados, conservados, vigiados, transportados. O terreno tem impostos, recebeu infraestrutura, tem energia. Então a GM terá prejuízo guardando carros? Dificilmente, porque os custos são diluídos no cálculo do preço dos carros. Tudo é contabilizado, e há uma boa faixa de segurança no sistema todo. As empresas funcionam assim.

Pois o “desempregado” também é um estoque. Um estoque de serviço. Quando não há procura pelo serviço, ele tem que ficar estocado em casa, mas sem remuneração. Ele tem custo: precisa comer, se vestir, se educar, se divertir, criar filhos. Sem ter estes custos contabilizados, se desespera, bebe, bate na mulher, nos filhos. Você acha que uma empresa sobreviveria com esse prejuízo? Então por que o trabalhador tem que sobreviver assim? A resposta é evidente: é preciso contabilizar o custo do estoque de serviço.

Isto pode ser feito com uma simples lei, uma espécie de lei-áurea para os empregados:

  1. Pessoas físicas não podem ser contratados para nada nem por ninguém, seja por outras pessoas físicas ou por outras pessoas jurídicas.
  2. Apenas pessoas jurídicas podem fornecer serviços.
  3. Revogam-se as disposições em contrário.

O que isto provocaria? Bem, se uma empresa não pode contratar pessoas como se fossem escravos pagos, ela só pode contar com o trabalho de seus sócios, que recebem pró-labore. Assim, se uma gráfica precisa de mão-de-obra, ela deve contratar serviços de uma outra empresa de fornecimento de serviços gráficos em que todos os trabalhadores sejam sócios. Você já sabe sobre que tipo de empresa eu estou falando, não?

Mas a simples abolição da “nova escravatura” não resolve o caso. Aí entram os atuais sindicatos, que devem se organizar em cooperativas de serviço e associar todos os trabalhadores de uma região, assegurando que todas as pessoas, antes desempregadas, terão seus custos contabilizados e cobertos, além de receberem uma parte dos lucros distribuídos no final do período fiscal.

Organização empresarial

A cooperativa calcula as necessidades de todas as pessoas, faz sua planilha de custos e vai negociar com quem precisa de serviços. Eventualmente, haverá mais pessoas que serviços, mas a cooperativa decide o que essas pessoas farão. Dez por cento das pessoas estarão de férias. Outros podem se dedicar a diferentes atividades: trabalho voluntário, pesquisa de novos serviços, estudos. Sempre há coisas para fazer.

O principal ponto é este: as cooperativas se organizam como empresas, pois empresas quase sempre se dão bem. Empregados quase sempre se dão mal. Empresas têm administradores, têm técnicas, tem planejamento. Empresas têm tudo para dar certo.

Democracia empresarial

O fim do patronato corrige outra situação desegradável do mundo atual: a falta de democracia. Não estou falando daquela democracia que a gente leva 730 dias para exercer: a democracia civil, que conquistamos com muito custo, que não é a ideal, mas que é melhor que nada. Estou falando da falta de democracia empresarial. No patronato, as pessoas passam mais de oito horas por dia em um ambiente altamente autoritário, que é o ambiente empresarial, como chamou atenção Ricardo Semler. Um quarto da vida sendo mandados por chefetes de todo o tipo, vivendo autoritarismo, prepotência, incompetência, falta de transparência, ameaças de demissão. E os empregados têm que engolir tudo.

No entanto, numa cooperativa, o associado é quem decide, democraticamente. E o melhor: no final do ano divide os lucros! E as relações de uma cooperativa de serviços com uma empresa contratante de serviços são relações de parceiros no negócio, não de patrão, pois os dois lados sabem que ganharão.

Faturamento proporcional

Sim, eu sei que estou falando em monopólio. Sei que, sem ter de onde contratar trabalhadores, as empresas contratantes de mão-de-obra terão que negociar com quem fornece. Mas um monopólio justo e racional.

Para os que fornecem serviço, a melhor tática não é brigar, como fazem patrões e empregados hoje, mas é fazer uma associação com o contratante de serviço, com remuneração relativa ao desempenho da empresa contratante. Isto quer dizer que, quando uma empresa estiver em situação ruim, a cooperativa de serviços receberá menos. Em compensação, se a empresa contratante de serviço se der bem, todo o mundo vai se dar bem. Isto incentivará todo o mundo a trabalhar.

Este sistema também vacina a economia contra crises. Numa crise clássica do capitalismo (na verdade, crise do patronato), a coisa é assim:

  1. Quando as empresas começam a ser dar mal, demitem.
  2. Sem trabalho, as pessoas param de criar riquezas, pois é o trabalho que gera riquezas.
  3. Sem dinheiro, param de consumir.
  4. A economia entra num redemoinho que engole tudo.

No sistema sem emprego, quando a economia não está bem, ninguém pára de trabalhar. Como não há emprego, não há desemprego. Como as pessoas continuam trabalhando, a riqueza não pára de ser gerada. As pessoas podem ganhar menos, mas não ficam “desempregadas”. Com a economia funcionando, fica mais fácil atravessar períodos não muito bons sem o desespero de ficar sem trabalho.

Toda esta jogada pode ser feita sem grandes traumas, apenas seguindo as técnicas de administração modernas. Sem derrubar o capitalismo, sem mortes, sem paredões. Apenas democratizando o capitalismo. Afinal, a culpa pela miséria não é do capitalismo, mas do patronato, o maldito sistema patrão-empregado, que substituiu a escravatura.

Já que escravatura não foi abolida, foi apenas substituída, está na hora de fazermos a abolição do emprego.



5 comentários

  1. Isso funcionaria muito bem em um mundo perfeito.
    Mas na prática seria um fiasco! Infelizmente…

  2. Flavio Menezes disse:

    Muito legal sua idéia de “revolucionar” o mercado de trabalho. As empresas sempre levam vantagem mesmo, até na hora de pagar impostos eles podem escolher o regime de tributação, criar vários CNPJs sob uma única holding, mas eles não estão sonegando estão fazendo “Planejamento Tributário” (o nome ao menos é bonito). Enquanto o empregado que se exploda. E em tempos de crise financeira mundial, temos um belo exemplo do redemoinho em que entramos. Quem sabe daqui há alguns séculos nossos governantes percebam que favorecer empresários em detrimento dos empregados abala o capitalismo que os sustenta e crie leis impondo alterações como você propôs.

  3. Danilo disse:

    Legal, fique sem emprego! sem dinheiro para comer! e sem dinheiro para nada! bela idéia anarquista a sua!

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